Antes parecer um colunista pedante do que um colunista sem imaginação. Escrevo isso para dizer que o tema deste artigo e suas linhas gerais já estavam comigo desde o início da semana passada, portanto, antes das reportagens desta semana de VEJA e do Jornal Nacional e da avaliação do desempenho do governo, que a Folha de S.Paulo trouxe no último domingo.

Felizmente, tenho testemunhas. Na quarta-feira, num evento do mercado financeiro, externei minha preocupação com o excesso de otimismo de alguns operadores. Na quinta-feira, numa palestra no Rotary Club, alinhavei alguns pontos que justificavam minha recente inflexão em direção a uma moderação de expectativas com relação ao desempenho da nossa economia em 2020, e pior, os seus reflexos nos anos subsequentes.

O foco principal de toda a política econômica e também dos agentes econômicos continuam sendo as reformas. A necessidade de implantação de micro e macro reformas toma todo o tempo e energia da equipe econômica, o que não é ruim.

Ninguém desconhece a importância de algumas dessas mudanças para a eliminação das amarras que travam, há décadas, o crescimento saudável e consistente do Brasil. Porém, há dois importantes aspectos que começam a aparecer nas discussões sobre a eficácia das reformas: a falta de resultados visíveis daquelas já aprovadas e as dificuldades crescentes quanto à aprovação, em tempo razoável, daquelas ainda em discussão.

Também não se pode esquecer que já temos dois anos e meio de uma nova política econômica, que veio substituir a desastrosa Nova Matriz Econômica roussefiana. No essencial, a política econômica do governo Bolsonaro é a continuidade da seguida pelo governo Temer, agora num ritmo mais acelerado e menos contestado.

Em bom tempo, mantiveram-se as contenções de gastos e reduções das taxas de juros, essas últimas favorecidas pela inflação sob controle, ainda que esse controle advenha da própria fraqueza de nossa economia. 

Apesar dessa continuidade e da ausência de oposição organizada e com credibilidade, os resultados são desanimadores. Se, de um lado, os índices de crescimento de 2018 e 2019 não podem ser desvalorizados, considerando que não houve tempo para a maturação de algumas políticas, por outro, as expectativas para 2020 são preocupantes.

Não apenas pelos números absolutos em si ─ algo em torno de 2% de crescimento do PIB ─ mas, principalmente, pelas incertezas que acompanham essas projeções. Salta aos olhos que é tempo de uniformidade de discurso no governo, de diálogo permanente e respeitoso com o Congresso e de emergência de uma liderança política que possa catalisar o desejo de mudança da sociedade, transformando-o em medidas efetivas e eficazes. O problema, que deveria ser a solução,  é que essa liderança tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro. 

O presidente, sabidamente, não tem gosto pela boa Política. Faltam-lhe assessores sinceros; sobram-lhe áulicos e fanáticos seguidores. Nesse ritmo, JB continua alheio, ou pouco ativo, nas pautas importantes, e ativíssimo nas redes sociais e nos seus encontros diários na porta do Planalto e do condomínio na Barra da Tijuca. Ali se sente à vontade, cercado pelo seu único eleitorado fiel, os 15% que votaram nele por convicção.

Despreza, principalmente, os 30% que o escolheram porque o viram como o mal menor e para que conduzisse o país a uma nova fase de desenvolvimento social e econômico, que não se confunde com o simples crescimento. Os demais, que não votaram na chapa Jair-Mourão, sequer são ouvidos e defendem-se como podem.

Por enquanto, o governo tem sido capaz de resistir ao cerco da grande imprensa, dos artistas, dos cientistas e dos intelectuais, que compõem o núcleo da oposição. JB imagina, com alguma razão, que essa gente não tem voto. Mas não há certeza de que esse desencanto não se propague, em especial se a anemia econômica persistir.

O fato é que a reforma trabalhista não apresentou resultados concretos em termos de melhoria de vida da população. Alardeava-se a criação de centenas de milhares de vagas com as novas regras de demissão e contratação. Em verdade, o saldo de geração de empregos tem sido positivo, mas num ritmo tão lento que indica decorrer mais do insosso crescimento do que das mudanças das leis. Ao contrário, os mapas de geração de empregos comprovam o aumento da informalidade.

Da reforma da Previdência, de longa maturação, esperava-se, no primeiro momento, apenas a volta da credibilidade nas contas públicas e, por consequência, a sinalização do retorno do investimento estrangeiro e da ativação de alguns projetos locais. Não é o que temos visto. O fluxo cambial é negativo, o dólar dispara e as empregadas domésticas são obrigadas a passar suas férias em Muriqui.

Em resumo, algumas coisas foram feitas, mas são insuficientes. E, pior, ainda que não tivéssemos as eleições municipais de outubro, não seria possível aprovar as duas reformas no forno ─ a administrativa e a tributária ─, tampouco as três PECs,─ a emergencial, a do pacto federativo e a dos fundos de desenvolvimento ─ tão importantes e necessárias quanto as reformas.

Governar, assim como administrar é, entre outras coisas, eleger prioridades, e estas, sabemos todos, quem define é o líder. O fato de ainda não ter chegado ao Congresso o projeto do governo para a reforma tributária e a demora em apresentar o da reforma administrativa confirmam a falta de apetite ou competência do Executivo. Como não existe vácuo na Política, vamos conviver em 2020 com o “parlamentarismo branco” de Rodrigo Maia, o que, nas atuais circunstâncias, não é de todo ruim.

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