“Nós precisamos ser um [único] Yahoo! e isso começa com estarmos fisicamente juntos”. Neste memorando de 2013, enviado pela chefe de recursos humanos da Yahoo! a todos os funcionários, foi dado um ultimato: ou os colaboradores voltavam a trabalhar nos escritórios físicos da empresa, ou estariam livres para buscar outros empregos. Na época, isso foi alardeado como o fim do trabalho remoto – se a Yahoo!, uma empresa de tecnologia, era incapaz de fazer o teletrabalho funcionar, é porque isso simplesmente não seria possível.

Sete anos (e uma pandemia global) depois, quase todos que podem estão trabalhando em casa. As tecnologias à nossa disposição há alguns anos facilitam o trabalho remoto. O popular software de teleconferências Zoom foi lançado em 2011, e a alternativa do Google, o Hangouts, foi lançado em 2013. Mas foi preciso uma crise severa para retirar as empresas da zona de conforto e fazer esse experimento em larga escala. Nos Estados Unidos e na Europa, quase todos, em algum momento ao longo desta pandemia, tiveram a oportunidade de experimentar o teletrabalho.

Ao mesmo tempo, a crise do coronavírus deprimiu severamente a economia. Com receitas em queda e a atividade estagnada, as empresas são forçadas a inovar e buscar otimizar suas despesas. E é nesse contexto que uma das linhas mais essenciais, mais difíceis de cortar – o espaço físico do escritório – começa a ser apresentada como uma alternativa. Se as atividades seguem normalmente sem a necessidade de que os colaboradores estejam no escritório, será que aquela linha de despesas é realmente tão indispensável assim?

Parece que não. Em uma pesquisa com CFOs feita pela PwC e publicada no Financial Times, cerca de 25% dos executivos financeiros esperavam reduzir a área locada pelos escritórios das empresas daqui para frente, baseados na experiência recente. Quase a metade desses executivos esperava tornar a modalidade de teletrabalho uma opção à disposição de quem assim o preferisse. Em algum momento, as medidas de restrição de circulação serão relaxadas. No entanto, mesmo quando o forem, será que as pessoas se sentirão confortáveis em dividir um espaço de escritório concentrado, com pouca distância entre uns e outros?

A verdade é que se antes o trabalho remoto estava lentamente sendo implementado pelas empresas, a crise simplesmente acelerou sua adoção em poucas semanas, e em escala global. Esse movimento não é sem vítimas. A disrupção causada pelo teletrabalho tem prejudicados claros: as empresas donas de propriedades comerciais. Os executivos dessas companhias, já pressionados por muitos inquilinos em dificuldades financeiras, estão às voltas com argumentos reiterando a necessidade do espaço físico. As premissas são conhecidas: o teletrabalho irá diminuir a inovação, as pessoas precisam ser monitoradas de perto, os clientes precisam de um espaço de recepção, ninguém vai assinar um contrato via teleconferência.

Não há dúvidas que os escritórios comerciais não serão relegados à extinção. Mas é razoável antecipar uma queda significativa em sua demanda, o que poderá pressionar o valor dos alugueis. O mercado já fez seu julgamento: enquanto o S&P 500 cai cerca de 10% em 2020, o setor de REITs – os fundos de investimento imobiliário nos Estados Unidos – segue cedendo aproximadamente 30% no ano.

E a experiência da Yahoo? Bem… a Yahoo! não é mais uma empresa independente, desde que foi comprada pela Verizon em 2017. E sua CEO em 2013, Marissa Meyer, já disse diversas vezes desde então que a extinção do trabalho remoto tinha muito menos a ver com não ser possível trabalhar de casa, e mais a ver com uma necessidade de mudar a forma como as coisas eram feitas na companhia. Inclusive, a Verizon já permitia a muitos funcionários o teletrabalho antes da crise. Os tempos são outros.

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