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Somos soterrados, diariamente, por uma avalanche de números, que querem nos fazer acreditar que são sérios e confiáveis, mas a realidade é que pouco se sabe de suas origens, de seus criadores e, pior, de suas consequências.”

A Matemática é uma ciência exata e os números não mentem jamais. Foi o que ouvi na aula inaugural de Matemática na primeira série do curso ginasial. Frase proferida pelo brilhante e inesquecível professor Barbosa, no glorioso ano de 1965. 

Eram tempos da chegada da Matemática Moderna e, nos livros de Osvaldo Sangiorgi, aprendíamos a Teoria dos Conjuntos, teoria de “grande valia” para o resto de nossas vidas. Considerando que Euclides, Pitágoras e Einstein não conheceram a Matemática Moderna e a teoria dos conjuntos — tampouco leram os livros de Sangiorgi — sou obrigado a admitir que eles não foram tão bons ou importantes quanto dizem.

Mas o tempo passou e chegamos ao Brasil do século XXI. E, como tudo nessa terra de novidades, as afirmações do velho professor foram relativizadas. Nem a Matemática é mais tão exata, nem os números tão sinceros. Em determinadas circunstâncias, os números podem mentir, sim. Em especial, quando submetido a torturas. Torturar números para fazer com que eles confirmem nossas “teorias” é um dos exercícios prediletos dos brasileiros, notadamente, jornalistas, políticos, estatísticos e economistas, entre tantos outros.  

Agora, nos tempos de pandemia, os números são obrigados a justificar as mais diversas abordagens ─ poderia dizer, barbaridades ─ das autoridades políticas e sanitárias. Discute-se, acaloradamente, no país, nos estados e municípios, o momento ideal para a retomada das atividades, com base em números absolutos e  taxas de ocupação de leitos, adesão ao distanciamento, testes realizados, casos confirmados e, infelizmente, indesejadas e lamentadas mortes de milhares de pessoas.

Números sem confiabilidade

Parece lógico e plenamente aceitável que os números balizem a tomada de decisão dos administradores públicos. O problema está na confiabilidade de tais números. Surgem do nada; são ditos e repetidos à exaustão, mas nunca demonstrados. São tantas as fontes de dados, que basta escolher a que melhor convém à autoridade, independentemente da excelência, do método, da coleta e do tratamento desses dados. Assim, mudam a cada dia, sem explicações razoáveis e justificáveis e, mesmo quando iguais, em diferentes regiões, podem servir a distintos pretextos, por exemplo, apertar ou afrouxar restrições de atividades.

Dois exemplos de uso discricionário dos números da pandemia chamam a atenção e, pasmem, pelo menos esses, não vêm do governo federal. No primeiro, o Governo do Estado de São Paulo, quem tem se mostrado transparente na divulgação de informações, apresenta projeções da evolução dos casos confirmados e dos óbitos. E comemora quando tais projeções não são atingidas. Ora, basta que essas projeções sejam superestimadas, com critérios desconhecidos, para que os números reais lhes sejam inferiores. De novo, os números são torturados para se adequarem à realidade desejada pelo governante.

No segundo exemplo, esse de um consórcio de mídia, é arbitrada uma margem de tolerância de 15% (quinze por cento) nos dados utilizados para avaliar o estágio da pandemia nos vinte e seis estados e no Distrito Federal. Em resumo, quando há uma variação inferior a 15% nos números de mortes, o estado permanece no estágio do período anterior. Não parece arriscado estabelecer uma margem tão larga para uma situação que exige medidas rápidas e eficientes em curtos espaços de tempo? Por que quinze? Poderiam ser dez, cinco, vinte? Quem e como se define isso?

Inúmeros chutes

A leviandade com os números, essa característica tão nossa, faz-me recordar a recente discussão da reforma previdenciária. Alguém deu o primeiro chute: a reforma vai economizar um trilhão de reais em dez anos. De onde veio esse valor? Ninguém sabe, ninguém viu e ninguém assumiu. Mas, tornou-se uma verdade que todos repetiam. 

A cada alteração ou negociação, surgiam novos números. Mexer na idade mínima? Menos cem bilhões. Preservar o direito das viúvas? Menos cinquenta bilhões. Rodrigo Maia acordou emburrado? Menos trinta bilhões. JB resolveu participar das negociações? Mais oitenta bilhões. E por aí foi a discussão. 

Hoje, depois de aprovada a reforma, ninguém fala mais desses números, sabidamente inventados, os quais, por sinal, nunca serão confrontados com a realidade. Não há dúvidas de que o mesmo roteiro vai acontecer nas discussões da reforma tributária.

Números são usados tanto para enaltecer quanto para desqualificar. É outra mania brasileira dizer que estamos em último lugar em quase todos os indicadores de qualidade de educação no mundo. Muitos dizem que os últimos trinta anos foram perdidos por uma suposta ideologização dos currículos. 

Para contestar essa percepção, por vezes injusta, basta saber que mais da metade dos países do mundo sequer tem sistema de avaliação de seus sistemas educacionais. Já no Brasil, nossos sistemas oficiais de avaliação, o SINAAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e o SINAES (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior) são projetos maduros com razoável confiabilidade. Nesse ponto, o mais correto, usando o jargão futebolístico, é dizer que estamos entre os últimos da série A. Estamos lutando contra o rebaixamento, mas temos time para escapar. Talvez o problema seja essa constante troca de técnicos.


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