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O Dilema da Inovação

Ressurgimento da Microsoft mostra que a cartilha da boa administração não é suficiente para enfrentar tecnologias disruptivas

Em 2000 a Microsoft era a empresa com o maior valor de mercado do mundo. No início deste ano, ela se tornou novamente a mais valiosa, ultrapassando a Amazon e alcançando o valor de 1 trilhão de dólares. Esse fato seria apenas uma mera curiosidade caso não fosse um evento muito raro de acontecer no mundo corporativo.

Por muitos anos, a Microsoft foi vista como uma empresa ultrapassada e que havia perdido várias ondas de inovação como os smartphones, os mecanismos de busca e as redes sociais, para citar apenas alguns exemplos. A empresa correu atrás do prejuízo, sem sucesso. O Zune tentou competir com o iPod e foi um fracasso. O sistema Windows Phone nunca deslanchou. E o Bing possui um market share de apenas 3% até hoje. É difícil de esquecer, também, o fracasso que foi a compra da Nokia pela Microsoft por mais de 5 bilhões de euros em uma última tentativa desesperada de competir com o iPhone e o Android. Um ano depois, a empresa realizou o prejuízo no balanço, demitiu todos os funcionários e fechou a unidade de negócio.

Satya Nadella, o atual CEO, entrou logo após esse último negócio fracassado (2014) e iniciou uma das grandes histórias de reinvenção dos últimos anos. Para isso, teve de enfrentar de frente o dilema do inovador. Em seu primeiro e-mail para os funcionários, Nadella não mencionou a palavra Windows nenhuma vez. No ano passado, em um movimento natural, a divisão do Windows inteira foi fechada e incorporada pelas outras unidades de negócio. De forma muito simplificada, Nadella virou a página, deixou de olhar para o retrovisor e investiu pesado no crescimento do Azure (Cloud) como a grande avenida de crescimento da companhia para os próximos anos. Atualmente, a unidade Cloud é a segunda maior do mundo atrás apenas do AWS (Amazon Web Services) e maior que o Google Cloud, por exemplo. Além disso, a Microsoft possui mais de 214 milhões de assinantes do Office (mais que o Netflix e o Spotify, por exemplo), em um movimento difícil de migração do modelo de venda de licenças para o modelo de subscrição.

No seu Livro “O Dilema da Inovação”, Clayton Christensen descobriu, surpreendentemente, que um dos principais motivos para o declínio das grandes empresas é justamente a disciplina de seguir a cartilha da boa administração: ouvir e atender aos desejos dos seus consumidores e focar em investimentos que prometem os maiores retornos. Pode parecer paradoxal – e é por isso que o autor denomina esse conceito de o ‘dilema do inovador’.

Segundo o autor, trabalhar duro, investir na melhoria dos processos e dos produtos e escutar atentamente os anseios dos consumidores são todas boas ações para problemas de inovação incremental. Mas seguir essa receita de bolo nem sempre é o melhor caminho quando uma empresa enfrenta uma tecnologia disruptiva. Nesses casos, é preciso enfrentar o dilema do inovador e assumir riscos que no curto prazo podem não fazer sentido, como por exemplo investir em projetos cujo retorno seja difícil de prever no curto prazo, ou que vão contra os anseios dos consumidores, pois nem sempre eles sabem o que vão precisar no futuro.

O que se percebe é que geralmente os incumbentes perdem muito tempo e dinheiro tentando proteger ou reescrever seu passado, fazendo com que seus investimentos em tecnologia não sejam tão inovadores como deveriam. Estamos vivendo um raro momento no Brasil, em que o setor financeiro, o maior setor da economia em termos de profit pool, está sendo atacado agressivamente por empresas jovens e inovadoras. Será que Itaú, Bradesco, Cielo e seus pares conseguirão repetir o feito improvável da Microsoft?

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