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Zeitgeist /ˈtsītˌɡīst,ˈzītˌɡīst/. Palavra alemã que significa o espírito ou humor particular de um determinado período da história, demonstrado pelas ideias e crenças daquele tempo.

Ao longo de 2019, reuni diversos artigos que me chamaram a atenção. Passei as últimas semanas revendo o que tinha acontecido, e compilei num texto, junto aos meus comentários, os temas que mais me chamaram a atenção.

Cabe ressaltar que a tradução para o português da maioria das citações ao longo deste artigo foram feitas livremente por mim.

China, poder militar e o TikTok

O ano não foi tranquilo para os chineses. Trouxe o aniversário de 70 anos da fundação da República Popular da China… e também os 30 anos do massacre na Praça da Paz Celestial. É uma comemoração da solidificação da China como uma superpotência que enxerga os Estados Unidos de igual para igual, mas também uma oportunidade de lembrar que a autoridade central chinesa precisa lidar com desafios frequentes à sua hegemonia.

“Quando vires um homem de valor, procura equiparar-te a ele. Quando vires um homem sem valor, examina a ti mesmo”. (Confúcio)

A hegemonia de Beijing é tão avassaladora que, apesar de se situar no extremo leste do país, impõe seu horário a todo o território. Em Kashgar, que fica a quase 3 mil quilômetros a oeste da capital e na mesma longitude de Nova Delhi, o sol não se põe antes das 20h nem mesmo no inverno. A rebeldia de Hong Kong em 2019 foi o maior desafio à autoridade central desde 1989. O envolvimento americano, após Trump sancionar uma lei em apoio aos manifestantes anti-Beijing, ampliou as tensões.

 “Nenhuma força pode perturbar o status da China, ou interromper que o povo e a nação chinesa marchem à frente”. (Xi Jinping)

Ninguém duvida da musculatura econômica chinesa. Xi Jinping aproveitou a ocasião da comemoração dos 70 anos para também exibir sua potência militar. Desfilou pela mesma praça da Paz Celestial seus novos mísseis intercontinentais, de tecnologia inteiramente chinesa, com alcance estimado entre 12 mil e 15 mil quilômetros, capacidade nuclear e tecnologia anti-interceptação.

“Nós não temos defesas contra aqueles sistemas”. (Michael Griffin, chefe de pesquisa e desenvolvimento do Pentágono)

Para além da influência econômica e militar, a China vem expandindo seu soft power. Financiando projetos de infraestrutura ao redor de seu círculo de influência na Ásia Oriental e na África, não há dúvidas para o mundo que existem, novamente, dois sistemas globais paralelos – o Ocidente, centrado em Washington, e o Oriente, cujo epicentro reside em Beijing.

Na América Latina, na África e na Europa Oriental a China é vista positivamente. O mesmo não ocorre na Europa Ocidental e na América do Norte. Em 2019, a opinião a respeito da China piorou drasticamente nos Estados Unidos e no Canadá, o que ajuda a explicar o ambiente político atual na região.

% de respondentes nos Estados Unidos (verde) e no Canadá (azul) que tem uma visão desfavorável da China.

No âmbito cultural, é interessante notar que o TikTok, a versão chinesa do Instagram, atingiu quase 180 milhões de downloads na App Store e no Google Play no 3º trimestre de 2019. Foi o segundo aplicativo mais baixado no período, perdendo apenas para o WhatsApp. Preocupações com a segurança dos dados pessoais, aparentemente, não gozam da mesma popularidade.

A guerra comercial com os Estados Unidos não se encerrou, mas o aparente acordo inicial fez acalmarem os ânimos em Washington e Beijing. Uma nova rodada de aumento de tarifas foi evitada, e o ano se encerrou com a primeira redução de tensões desde que começou a escalada do conflito.

“Queremos trabalhar para um acordo Fase Um na base de respeito mútuo e igualdade”. (Xi Jinping)

Apesar de um 2019 agitado em outras esferas, pelo menos nos mercados o ano trouxe alegria para os chineses. O principal índice da bolsa de Xangai apresentou formidável desempenho de +22% ao longo do período.


“Powell put”, o FED e economistas que sabem mais do que o povo

O ano que passou também foi bastante tumultuado para o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, carinhosamente chamado de Fed.

Desde que Jerome Powell assumiu o Fed, lentamente a política monetária nos Estados Unidos se tornou mais restritiva. Mesmo na ausência de pressões inflacionárias significativas, a taxa referencial de juros subia e o banco deixava vencer parte da enorme dívida governamental que havia acumulado em seu balanço, fruto dos programas de compra de ativos empreendidos nos últimos anos.

O fim de 2018 trouxe um pequeno colapso nos mercados, com o S&P acumulando uma queda de quase 20%. Então, no começo de 2019, o presidente do Fed resolveu renovar a famigerada “put do Fed” – o compromisso implícito de que o Banco Central irá resgatar os mercados de uma queda forte, tornando a política monetária mais acomodatícia.

“Estamos escutando cuidadosamente a mensagem que os mercados estão mandando, e iremos levar em conta esses riscos baixistas ao implementarmos a política monetária daqui pra frente”. (Jerome Powell)

Interrompendo um ciclo de alta que vinha desde o fim de 2015, o Fomc (equivalente ao nosso Copom, Comitê de Política Monetária) cortou a taxa de juros três vezes em 2019 e decidiu interromper a pequena contração do estoque da dívida no balanço do Fed. Os mercados foram salvos e o S&P 500, o principal índice acionário dos Estados Unidos, refez suas máximas, encerrando o ano com uma valorização de mais de 30%. Todos, principalmente o chefe de Powell, ficaram muito felizes. A triste exceção foram os poupadores, que precisarão correr riscos cada vez mais altos para preservar o seu patrimônio.

Então, em setembro, os mercados de empréstimo interbancário nos Estados Unidos sofreram um forte estresse. Por uma questão ainda não muito bem compreendida, e estranhamente não antecipada pelo Fed, os canais de distribuição de fundos no sistema não funcionaram bem, a taxa de juros interbancária disparou para 10% e o Fed teve de, novamente, resgatar o sistema. Comprou muita dívida da mão dos bancos, repôs a liquidez no sistema e inflou, novamente, o estoque de ativos em seu balanço.

Ativos totais no balanço do Federal Reserve

 

Toda essa injeção de liquidez na economia não gerou inflação de bens e serviços, mas provavelmente gerou uma forte inflação de ativos. Isso beneficiou tremendamente quem já detinha capital, em detrimento de quem não carregava poupança. Há quem diga que esse seja uns dos fatores a contribuir para o aumento da desigualdade nos Estados Unidos, e ajuda a explicar o atual momento político.

Mudanças na distribuição da riqueza nos Estados Unidos entre 1989 e 2016. (St Louis Fed)

 

Pode parecer um pouco de loucura dizer que bancos centrais, que tipicamente são independentes justamente para evitar serem engolidos pela discussão política, possam efetivamente causar consequências políticas reais. Mas leia o que escreveu William Dudley, que foi vice-presidente do Fomc, em artigo opinativo para a Bloomberg:

 “Existe um argumento que até as próprias eleições estão dentro da alçada do Fed. Afinal de contas, a reeleição de Trump pode representar uma ameaça para as economias dos Estados Unidos e do mundo, para a independência do Fed, além de sua capacidade de atingir suas metas de emprego e inflação. Se o objetivo da política monetária é alcançar o melhor resultado econômico de longo prazo, então os oficiais do Fed deveriam considerar como suas decisões irão afetar o resultado político em 2020”. (William Dudley, fazendo o comentário mais irresponsável da história vindo de um ex-oficial do Fed).

Aparentemente, certos economistas acreditam que os banqueiros centrais, burocratas que não passaram pelo crivo das urnas, poderiam usar seus instrumentos monetários para influenciar as eleições. Alguns desses economistas já foram até seriamente considerados para a presidência do Federal Reserve.

Mudanças climáticas, Greta e (de novo) bancos centrais

Considerações a respeito da confiabilidade de registros históricos de temperatura a parte, em 2019 tivemos (ainda) mais geleiras derretendo e o anúncio de que o mês de julho foi o mais quente da história recente no Hemisfério Norte, com uma anomalia de +0,95ºC em relação à média do século XX.

Na Europa, em especial, a temática de ações concretas para o clima vem ganhando relevância entre as pautas importantes para os eleitores. De acordo com a última pesquisa de 2019 do Eurobarometer, 92% dos europeus concordam que as emissões de gases estufa deveriam tornar a economia da região neutra para o clima até 2050. Os alemães já querem eliminar o carvão de sua matriz energética até 2038. Os jovens europeus acham que pode ser tarde demais.

A ativista sueca de 17 anos, Greta Thunberg, eleita “Person of the Year” pela Time Magazine, começou uma onda de protestos na Europa ao decretar greves escolares às sextas-feiras. Ao ganhar fama, cruzou o Atlântico em um iate equipado com painéis solares e turbinas submarinas até chegar à Conferência das Nações Unidas de Ação para o Clima, em Agosto.

“Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias. E ainda assim, eu sou uma das sortudas. Pessoas estão sofrendo. Pessoas estão morrendo. Ecossistemas inteiros estão colapsando. Estamos no começo de uma extinção em massa, e tudo sobre o que vocês falam é dinheiro e contos de fadas de crescimento econômico eterno. Como ousam?!” (Greta Thunberg)

Os banqueiros centrais, vendo a comoção, não poderiam deixar de pensar em como a política monetária também não poderia abarcar questões climáticas. Numa carta assinada por Mark Carney, governador do banco central do Reino Unido (Bank of England), e François de Galhau, do banco central francês (Banque de France), podemos ler:

“Como curadores da política financeira e supervisores prudenciais não podemos ignorar os óbvios riscos físicos diante de nossos olhos. Mudança climática é um problema global, que requer soluções globais, nas quais todo o setor financeiro tem um papel central a desempenhar… Se algumas empresas e indústrias não se adaptarem a esse novo mundo, elas deixarão de existir”. (Mark Carney e François de Galhau)

Seguimos aguardando qual o papel que os banqueiros centrais pretendem desempenhar para combater as mudanças climáticas. Talvez um programa de recompra de créditos de carbono?

Ironias à parte, a sustentabilidade tem gradativamente ocupado um espaço maior na agenda dos investidores. Conforme aumenta a pressão para que empresas se tornem mais responsáveis na consideração de seus impactos ambientais e sociais, também muda o papel que os gestores de recursos têm a desempenhar no processo de alocação de capital.

Desde a neutralidade de carbono no portfólio até o estabelecimento de indicadores de performance baseados em “pegada ambiental”, são eles que terão a capacidade de exercer, como acionistas, pressão para que as empresas se adaptem. É o advento do investimento ESG – estratégias que levem em consideração fatores ambientais, sociais e de governança –, que permite que você invista seu dinheiro e ainda consiga dormir à noite.

Tudo muito bonito e responsável, desde que os retornos não sejam comprometidos.

“Isso não é, de forma nenhuma, um sacrifício dos retornos. Nós na verdade achamos que os retornos serão superiores, porque conseguiremos escolher melhores companhias para investir. Acho que é muito poderoso. Estou falando para os CEOs de empresas listadas nas quais invisto hoje que em três anos seus múltiplos (Preço/Lucro) serão afetados pela sua nota de ESG”. (Cliff Robins, fundador do Blue Harbour Group)

De fato, alguns fundos selecionados focados em sustentabilidade tiveram um desempenho superior ao do S&P 500 em 2019.

Verde, vermelho e isenções fiscais

Mesmo no atual debate político, é muito difícil contestar alguns fatos. De fato, o mundo está apresentando temperaturas mais altas em relação ao passado recente. De fato, há mais carbono na atmosfera.

A Nasa, a agência espacial dos EUA, publicou em 2019 um estudo um pouco surpreendente – revelando que o mundo está se tornando mais “verde”. Existem mais áreas com vegetação no mundo hoje do que há 20 anos.

Tendência de área de folhagem média no mundo, por década, de 2000 a 2017. 

 

O aumento na área coberta por vegetação se explica, segundo os cientistas, por dois fatores: (1) O clima mais quente e mais úmido, aliado ao aumento do carbono na atmosfera, (2) Pelo fator humano, com países com fama de destruidores do meio ambiente, como Índia e China, implementando programas de conservação e expansão de florestas, além de um aumento da produtividade nas áreas plantadas.

“Mas, agora que sabemos que a influência humana direta é um dos fatores-chave para a Terra se tornar mais verde, nós precisamos levar isso em conta em nossos modelos climáticos”. (Rama Nemani, pesquisador da Nasa)

Apesar de termos um mundo mais verde, 2019 também foi marcado por mais traços de vermelho.

Vimos incêndios na Amazônia, na Austrália, na Sibéria, no Líbano, na Califórnia. Seja por regimes de chuva diferentes, pelo desmatamento localizado ou por infraestrutura velha de energia, o ano viu uma série de queimadas pelo mundo.

Número de incêndios florestais detectados pela missão Sentinel-3.

 

“Nós nunca vimos um aumento em incêndios florestais desta magnitude desde que o Atlas de Incêndios Mundiais foi criado, em 1995”. (Olivier Arino, da Agência Espacial Europeia)

Mas não foram só tesouros naturais que perdemos para as chamas. Também foi consumido pelo fogo um legado da civilização ocidental: o Natal de 2019 foi o primeiro, desde a Revolução Francesa, no qual não tivemos a missa natalina na Catedral de Notre-Dame.

Notre-Dame em chamas.

“É como assistir a uma pessoa queimando”. (Mulher parisiense entrevistada durante o incêndio)

Seguiu-se uma grande comoção, e vastas quantias foram oferecidas para sua reconstrução. Junto ao dinheiro, vieram as polêmicas.

A LVMH e a família Arnault se comprometeram a doar €200 milhões para a reconstrução da catedral. Foi a maior doação, ao lado da empenhada pela L’Oreal (e família), e seguida pela oferta de €100 milhões do “arquirrival” de Arnault, o CEO da Kering, François-Henri Pinault.

A torrente de doações vultosas chamou a atenção de críticos, que questionaram o fato de  haver dinheiro para restaurar uma catedral mas não para endereçar problemas sociais.

“Em um clique, 200 milhões, 100 milhões… também mostra as desigualdades neste país”. (Philippe Martinez, secretário geral do sindicato Confederação Geral do Trabalho)

Outros críticos apontaram que a motivação dos bilionários doadores não era altruísta, já que a lei francesa concede deduções fiscais de 60% sobre algumas doações. Dessa forma, a isenção fiscal significaria que mais da metade dos valores acabaria recaindo sobre os contribuintes franceses.

“Dos quase €700 milhões [empenhados até o momento], cerca de €420 milhões serão financiados pelo estado, no orçamento de 2020”. (Gilles Carrez, deputado francês do Comitê de Finanças)

No encontro de acionistas da LVMH, Arnault explicou que a companhia não estava nem mesmo elegível a isenções fiscais no momento, dado que haviam batido o teto previsto em lei ao montarem a Fundação Louis Vuitton.

“É uma polêmica vazia. É bastante inquietante ver que na França você é criticado até mesmo por fazer algo pelo interesse público”. (Bernard Arnault, o homem mais rico da França)

 

Socialismo à americana

Teoria Monetária Moderna. Renda básica universal. Sistema gratuito de saúde. Perdão das dívidas estudantis. Universidades gratuitas. Green New Deal. São esses os temas sendo discutidos nos estertores das eleições presidenciais nos Estados Unidos, que ocorrerão no fim de 2020.

“Reagan provou que déficits não importam”. (Dick Cheney, ex-VP dos Estados Unidos, Republicano)

É evidente que taxas de juro extraordinariamente baixas devem nos fazer repensar alguns conceitos quanto ao tamanho “ideal” da dívida e dos déficits que um estado pode carregar. O Brasil de 2020 é um grande exemplo disso. Mas impressiona a rapidez com a qual esse conceito se deteriorou nos Estados Unidos. Algumas alas políticas defendem que déficits simplesmente não importam, e que qualquer expansionismo fiscal (via mais gastos ou mais cortes de impostos) pode ser financiado pelos bancos centrais, sem ônus para a economia.

“…ao contrário do que dizem os teóricos monetários modernos, não é verdade que os governos podem simplesmente criar divisas para pagar todas as despesas à frente e evitar o calote da dívida. Como a experiência de uma série de mercados emergentes demonstra, após certo ponto, essa abordagem leva à hiperinflação”. (Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro)

Os defensores da teoria monetária moderna dizem que, efetivamente, ignorar déficits fiscais poderia gerar alguma inflação. No entanto, quando a inflação fosse gerada por excesso de demanda, o governo poderia elevar impostos. Se a escalada de preços fosse por algum excesso de mercado, as agências poderiam gerenciar a demanda de alguma maneira.

Seria um tipo de planejamento central da economia, que lembra um sistema econômico que até pouco tempo atrás antagonizava a maior parte do povo americano. Not anymore.

“Então, se a inflação está subindo porque grandes corporações decidiram usar seu poder de precificação para aumentar suas margens de lucro à custa do público, reduzir a demanda pode não ser a ferramenta mais apropriada. […] nós precisamos de ferramentas alternativas à disposição para gerenciar o poder de grandes negócios e nos assegurar que suas políticas de preço são consistentes com o propósito público”.

“[…] não somos contra uma ou mais agências receberem ferramentas adicionais para coletivamente gerenciar a demanda de forma discricionária. […] Um de nós, muito tempo atrás, sugeriu no Financial Times que o objetivo de delegar a responsabilidade por gerenciar a demanda no dia-a-dia para uma agência independente era uma boa ideia, mas que o Federal Reserve era a agência errada”. (Proponentes da MMT, em editorial no FT. Destaques do autor.)

Deficits só estiveram nesses níveis durante ou logo após recessões. 

 

Em 2019, a situação fiscal dos Estados Unidos era de déficits mais altos com uma economia em expansão. Com as ideias de expansão fiscal cada vez mais populares no país, especialmente entre a população mais jovem, parece inevitável que a trajetória da dívida pública por lá seja para cima.

Talvez não seja coincidência que o preço do ouro, em dólares, tenha subido mais de 18% ao longo de 2019 – o melhor desempenho desde 2010 e mais robusto que a maior parte das divisas.

Expectativas, realidade e exuberência

A eleição de um governo market-friendly no Brasil animava os investidores no alvorecer de 2019. Vale relembrar as expectativas na virada do ano retrasado, de acordo com o último relatório Focus de 2018:

Expectativas – Relatório Focus de 28/12/2018. 

 

“Previsões são muito difíceis, especialmente se forem sobre o futuro”. (Niels Bohr, Nobel da Física)

Como ocorrido nos anos anteriores, o ritmo do crescimento da atividade foi esmorecendo ao longo do primeiro semestre do ano. As estimativas para 2019 atingiram seu nível mais baixo em agosto, quando o crescimento esperado passou para míseros +0,8%. A atividade simplesmente se recusava a decolar, a confiança dos consumidores e da indústria entraram em queda vertiginosa, e não havia sinais de retomada do emprego.

No entanto, conforme Brasília foi entregando as reformas – a glorificada reforma previdenciária foi finalmente liquidada em 2019 – a confiança começou a se recuperar no segundo semestre. A inflação bastante baixa (que chegou a uma mínima de +2,5% no acumulado de 12 meses de outubro), a liberação de mais uma tranche de recursos do FGTS, e dados do varejo em franca evolução – todos colaboraram para a retomada do otimismo. No último Focus de 2019, as expectativas de crescimento do PIB para o ano já haviam se recuperado para +1,2%.

Expectativas – Relatório Focus de 27/12/2019.

 

A inflação, comportadíssima e não abalada nem mesmo pelo choque nos preços da proteína, autorizou um novo ciclo de cortes da taxa de juros ao longo do ano. Campos Neto continuou o legado de seu antecessor e derrubou a Selic de 6,5% para 4,5% anuais.

Com os pós-fixados mal repondo a inflação, a reprecificação do custo do dinheiro trouxe uma série de consequências para os mercados brasileiros.

Primeiramente, o Real deixou de ser uma moeda atraente, de pagamento de juros (o chamado “carrego”). O preço do Dólar no Brasil atingiu sua máxima nominal histórica, mesmo nos momentos de maior otimismo com a economia. O movimento ainda foi amplificado no quarto trimestre, após a decepção com o leilão da cessão onerosa e a turbulência na América Latina.

                                Preço do Dólar em Reais.

 

Além disso, o achatamento das taxas contribuiu para que 2019 firmasse recorde na emissão de debêntures. Ao longo do ano, foram captados mais de R$ 160 bilhões. A maior parte desse movimento ocorreu no primeiro semestre, conforme os investidores migraram do mercado de dívida pública para o mercado de dívida privada, buscando retornos mais elevados. Os prêmios dos papeis foram achatados significativamente, e as dívidas foram alongadas. A abundância de liquidez fez até com que as taxas ficassem exageradamente baixas, ensejando um leve reajuste no segundo semestre do ano.

            Índice de Debêntures Geral Anbima: desempenho em 2019.

 

“Havia algo errado no jeito que o mercado estava precificando o risco. Mas isso criou uma situação favorável para as empresas, que puderam reduzir o custo da dívida. Quem surfou essa onda, surfou.” (Guilherme Silveira, diretor de Renda Fixa do Santander)

Por fim, o mercado de ações viu uma exuberância como não vista em muitos anos. De 813 mil CPFs cadastrados na B3 em 2018, o ano passado encerrou com mais que o dobro: quase 1,7 milhão de pessoas físicas.

Tivemos uma quantidade pequena de IPOs: cinco ofertas (Centauro, Neoenergia, Vivara, Banco BMG e C&A). No entanto, foram 37 ofertas secundárias. Entre primárias e secundárias, as listadas captaram R$ 90 bilhões ao longo de 2019, um volume superado apenas por 2010, que contou com a megacapitalização da Petrobras.

As expectativas ainda são de aceleração para 2020, com alguns estimando volumes de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões. Algumas operações já estão contratadas, como os desinvestimentos programados pelo BNDES  e as empresas do setor de saneamento, animadas pelo novo marco regulatório.

O mercado de capitais brasileiro viveu uma verdadeira catarse em 2019, e as expectativas estão alinhadas para a plena continuidade do bull market em 2020. Em tempos de exuberante otimismo, convém lembrar das famosas palavras do Barão de Rothschild, que fez sua fortuna comprando no pós-pânico da Batalha de Waterloo:

“Compre quando houver sangue nas ruas, mesmo se o sangue for seu”. (Barão de Rothschild)

Não vejo sangue nas ruas. Na verdade, ando ouvindo violinos.

Fintwit, o condado e o IPO da XP

A alta adesão das pessoas físicas à bolsa ao longo de 2019, no ambiente altamente conectado que vivemos hoje, fez florescer um fenômeno algo inusitado: uma comunidade de influenciadores digitais de investimentos.

“Oi. Meu nome é Bettina, eu tenho 22 anos e 1 milhão e 42 mil reais de patrimônio acumulado”. (Bettina Rudolph, célebre após uma campanha veiculada em Março de 2019)

O movimento que começou em 2009 com algumas casas de análise independentes, voltadas para pessoas físicas, se multiplicou. Hoje temos no Brasil muitos serviços semelhantes, com graus diferentes de institucionalidade e sofisticação. E aos poucos, na era das mídias sociais, esses influenciadores criaram verdadeiras empresas por trás de perfis no Twitter, no Instagram, no Telegram. Outros se integraram ao ecossistema sem grandes intenções comerciais, fazendo surgir perfis anônimos e/ou de sátira.

A famosa propaganda de Bettina Rudolph gerou muita repercussão em 2019. A empresa que a veiculou acabou depois propondo um tipo de retratação, e foi multada pelo Procon em cerca de R$ 58 mil.

“Perguntei hoje ao estagiário o quanto o mercado já influenciou na vida dele. Ele respondeu que agora abastece o carro (sim, ele tem) em 8 postos diferentes por vez, para fazer o médio da gasolina. Tá aprendendo o menino” (@FariaLimaElevat, perfil de sátira do Financial Twitter brasileiro)

A democratização do acesso aos fundos de investimento, provocado pelas corretoras de varejo, também acabou gerando dificuldades – como poderiam os gestores de recursos, acostumados a tratar apenas com clientes institucionais, se comunicar com um passivo cada vez mais pulverizado, em controle do seu próprio dinheiro, e muitas vezes pouco educado a respeito de investimentos? Como é que o público de varejo vai adquirir educação financeira, para medir os riscos adequados quando se torna gritantemente inconveniente deixar o dinheiro em um fundo DI?

A solução foram as mídias sociais. Qualquer gestora de recursos que atenda ao público de varejo precisou elevar sua intensidade de comunicação e se aproveitar das novas tecnologias para capturar uma fonte de poupança que antes estava inacessível, na mão de poucos grandes bancos.

“Nascem e morrem muitas. No pico do bull market, gestora é pior que paleteria mexicana ou hamburgueria gourmet”. (@hbredda, perfil de Henrique Bredda, gestor do Alaska)

Uma consequência pouco esperada da grande vitrine que se tornou a Faria Lima de 2019 foi a intensa promoção da cultura “Faria Limer”. Uma matéria de dezembro destrinchou o estilo de vida de quem vive ou trabalha no “condado”, onde se concentra a maior parte do mercado financeiro paulistano. Seguiu-se um intenso escrutínio, temperado com sarcasmo, sobre as pessoas que trabalham de colete, se deslocam de patinete pela ciclovia, são adeptas de meditação e de passeios com seus labradores no Parque do “Povo”.

Tais quais as blogueiras da moeda, surgiram os “financial influencers”. Após lançamento de um blog em 2013, um canal no YouTube em 2015, um programa de rádio em 2016, o lançamento de um livro em 2018, e finalmente um reality show na TV Bandeirantes em 2019, Nathalia Arcuri é a maior influenciadora digital em finanças sociais do Brasil. Hoje dá palestras pelo Brasil, tem um curso sobre educação financeira, mais de 4 milhões de inscritos em seu canal no YouTube, 2 milhões de seguidores em seu perfil no Instagram, e estima-se que tenha faturado em sua empresa R$ 15 milhões em 2019.

O movimento de popularização dos investimentos, e do uso das redes sociais, se perenizou no Brasil neste ano. Mas já ocorre há algum tempo lá fora. As financial newsletters, serviços de informação por assinatura destinados a pessoas físicas, são um modelo consolidado nos Estados Unidos, onde os investimentos em bolsa são muito mais populares. E as corretoras de varejo brasileiras, como a XP e o BTG Digital, se inspiram em um movimento que já ocorreu lá fora, capitaneada por corretoras como a Charles Schwab. Se tornaram um verdadeiro shopping, abrindo ao pequeno investidor muito mais opções de investimentos.

“Pela primeira vez, nós deixamos pequenos investidores falarem diretamente com empresas de gestão de recursos, empresas de seguros, corporações, com bancos de qualquer tamanho, de qualquer lugar no Brasil” (Guilherme Benchimol, um dos fundadores da XP).

O sucesso da XP foi notável, e 2019 foi o ano de sua abertura de capital. O fato de ter escolhido fazê-lo na bolsa Nasdaq, dos Estados Unidos, e não na B3, dificultando o acesso do investidor brasileiro que a levou onde chegou, gerou alguma consternação.

“A XP, por opção própria, deixou de fora o investidor pessoa física brasileiro de seu IPO, justamente o seu próprio cliente, a razão do sucesso da própria empresa, que a levou ao valor de mercado atual de vários bilhões de dólares”. (Felipe Miranda, CIO da Empiricus)

A empresa se defendeu, apontando que os investidores estrangeiros pagam múltiplos mais altos por empresas de alto crescimento, que a listagem lá fora era mais barata, e culpando o arcabouço regulatório mais restritivo no Brasil, que proíbe, por exemplo, a existência de ações com votos plurais.

Seja como for, a abertura de capital da XP Inc foi um sucesso absoluto – saiu acima do teto da faixa indicativa de preço, e captou mais de US$ 2 bilhões na Nasdaq. Pode – até deve – estimular que outras empresas façam o mesmo caminho. E vem provocando a CVM e a B3 a reverem algumas práticas do mercado nacional.

“Fica um gosto amargo depois de um grande IPO de empresa brasileira que não é na B3 […] a exportação de mercado nos preocupa muito, quando temos um mercado pujante, com juros na mínima histórica”. (Gilson Finkelstain, presidente da B3)

Unicórnios tupiniquins e o Wework

 “Eu estava tentando encontrar uma palavra que seria fácil de usar repetidas vezes. Brinquei com palavras diferentes como ‘home run’, ‘megahit’, e todas essas soavam meio que ‘blá’. Então eu coloquei ‘unicórnio’ porque elas são – essas são companhias muito raras no sentido que existem milhares de startups em tecnologia todos os anos, e apenas umas poucas eventualmente se tornam uma empresa unicórnio. Elas são muito raras”. (Aileen Lee, fundadora da Cowboy Ventures)

Desde o artigo publicado por Lee, que deu origem ao uso do termo “unicórnio”, essas empresas foram se tornando bem menos raras. Segundo o TechCrunch, o mundo contava com apenas 45 unicórnios no fim de 2013. No 3º trimestre de 2019, esse número já era 9,2x maior: eram 414 empresas com esse status no mundo.

O Brasil contribuiu, ainda que de forma modesta. Contamos com dez unicórnios no total. Metade desses surgiu em 2019: foram eles Loggi, Gympass, QuintoAndar, Ebanx e Wildlife.

“Eu acho importante ver mais unicórnios, porque isso acende uma chama única nos empreendedores. Mostra que, sim, startups brasileiras também são negócios com potencial de escala. E também serve para atrair investidores de fora para o Brasil”. (Renata Zanuto, co-head do Cubo Itaú)

A queda do custo de capital e as melhores perspectivas para a economia certamente contribuíram para esse ano prolífico para o ecossistema de startups no Brasil: os mesmos efeitos que vimos nos mercados públicos não deixariam de ocorrer nos mercados privados. Mas foram os aportes de um grupo em específico que fizeram três dos cinco unicórnios brasileiros nascidos em 2019: o Softbank Group.

A holding japonesa, fundada por Masayoshi Son, tem participações em diversas empresas de tecnologia mundo afora, como o Alibaba e o Uber. Além disso, gerencia fundos de Venture Capital focados em tecnologia. E em 2019 começou um fundo com capacidade de 5 bilhões de dólares para investir na América Latina.

A entrada de um player com tanto dinheiro na região levantou temores de que o Softbank já esteja inflacionando preços em um mercado relativamente pequeno.

“Mas pega uma empresa que eu gosto muito, que é a Stone, que hoje vale US$ 11,6 bi. Ajudei a levantar capital para a Stone quando eu trabalhava no JP Morgan. Era uma rodada privada e naquele momento a empresa valia US$ 1,5 bi. Faria diferença se você tivesse pago US$ 1,5 bi ou US$ 1,75 bi? Se você investir para criar empresas de US$ 10 bi, como é a nossa teoria, acelerando plano de crescimento, faz pouca diferença”. (André Maciel, managing investment partner do Softbank)

Gigantismo à parte, o SoftBank de Masayoshi Son tem sucessos inegáveis em seu portfólio. Seu mais famoso acerto foi o investimento de US$ 20 milhões em Alibaba, em 2000. Considerando o preço de fechamento do papel após seu IPO, em 2014, a participação valia quase US$ 75 bilhões – uma multiplicação de mais de 3.700x, de fazer inveja até em MGLU3!

Mas foi em 2019 que o megainvestidor de tecnologia também passou pelo maior desafio de sua história – o famigerado investimento em WeWork. A empresa sonhava em ser uma “disruptora” no mercado imobiliário, basicamente montando espaços de co-working. Em Janeiro de 2019, recebeu um investimento do SoftBank que a avaliava em US$ 47 bilhões.

Com a chancela dos japoneses, Adam Neumann, fundador da empresa, começou a ventilar seus planos para um IPO ainda em 2019. O JPMorgan disse aos diretores da companhia que ela poderia abrir seu capital a um valuation entre US$ 46 e 63 bilhões. Já a Goldman Sachs avaliou a empresa entre US$ 61 e 96 bi!

Contudo, quando os bancos de investimento tornaram público o prospecto da oferta, ficou claro que o maior potencial disruptivo encontrado na companhia não era exatamente no mercado imobiliário – mas sim na contabilidade criativa, na (des)governança e na capacidade de perder dinheiro.

Com termos como “Ebitda Ajustado pela Comunidade”, e o fato de Neumann ter comprado a licença para o nome “We” e a cedido para a empresa por US$ 5,9 milhões, entre muitos outros potenciais conflitos de interesse, os potenciais investidores já estavam se sentindo particularmente cautelosos.

“O prospecto é uma obra prima de dissimulação. Se os fatos subjacentes fossem positivos, porque uma empresa se esforçaria tanto para te impedir de entendê-los?” (Rett Wallace, CEO da Triton Research Inc.)(11)

A gota d’água foram os aparentes problemas com o modelo de negócios da empresa. A WeWork devia US$ 47 bilhões em futuros pagamentos de aluguel, mas tinha receitas contratadas de apenas US$ 4 bi. O prejuízo de 2019 foi de US$ 1.9 bi, com uma receita de $ 1.8 bi. Basicamente, para cada dólar faturado, a empresa perdia dois dólares.

Não conseguindo fazer o IPO nem mesmo em uma faixa de valuation de US$ 10 a 12 bilhões, a oferta foi cancelada. O SoftBank conseguiu expulsar Neumann do comando, colocou mais dinheiro na operação e assumiu as perdas. A holding registrou US$ 6.5 bi de prejuízo no terceiro trimestre do ano passado, sua primeira perda em 14 anos.

“No caso do WeWork, eu cometi um erro. Não darei nenhuma desculpa. Foi uma lição muito dura”. (Masayoshi Son, em uma coletiva de imprensa em Tóquio)

Talvez a lição de WeWork tenha reduzido o apetite do Softbank e sirva para mitigar as preocupações de um eventual crowding out em seus investimentos na América Latina. A conferir.

O ano do porco

De acordo com o calendário chinês, 2019 foi o Ano do Porco. A astrologia local dizia que seria um excelente ano para fazer dinheiro e para investir. Deu certo. Globalmente, os mercados acionários valorizaram em cerca de 30%. Ironicamente, também foi em 2019 que o ano do porco trouxe o maior surto de gripe suína já enfrentado pelos chineses (1)

Na política, foi um ano conturbado. Tivemos eleições dramáticas na Argentina (com a segunda maior queda diária de um mercado acionário da história), na Bolívia e no Reino Unido. Na ciência, foi fascinante: houve o registro da primeira “foto” de um buraco negro, além do desenvolvimento de uma vacina eficaz contra o Ebola. Para os mercados, além das histórias que tocamos aqui, tivemos muitas outras: o IPO de Beyond Meat, os problemas da Boeing, o colapso de Macy’s e de Kraft Heinz.

Foram muitos os temas que capturaram nossa atenção em 2019. O ano de 2020, que inaugura a nova década, já começou com uma severa crise no Oriente Médio. O Ano do Rato, na astrologia chinesa, é considerado de início de ciclo, novos começos, e de renovação – mas janeiro começou às voltas com um conflito bastante antigo.

De minha parte, desejo a todos amigos e parceiros um excelente 2020. E, para aqueles que notaram a falta de previsões para o ano que começou, encerro com a última citação desse artigo:

“Existem dois tipos de investidores, sejam grandes ou pequenos: aqueles que não sabem para onde vai o mercado, e aqueles que não sabem que eles não sabem para onde vai o mercado”. (William Bernstein, teórico financeiro)


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