Escrevi sobre este tema em 2017, mas ele segue sendo tão ou mais atual do que nunca.

Eu havia feito uma viagem para Portugal, onde visitei o novíssimo MATT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa, em cujo salão principal a artista brasileira Marilá Dardot apresentou a videoinstalação “Diário”. Nesse trabalho, durante quase um mês, a artista escrevia com água, sobre um grande muro de concreto, as manchetes mais impactantes que lia nos jornais mexicanos. Mesmo antes de acabar de escrever toda a notícia, as palavras iam se apagando, materializando a sua brevidade e efemeridade.

Essa obra me fez refletir como estamos sempre conectados a notícias, cotações, tweets etc. Até mesmo em momentos de descontração e férias estamos conectados, mas via de regra, passadas algumas semanas, não temos a mais vaga lembrança das informações consumidas, ficando apenas a certeza da sua irrelevância.

Se o desafio antigamente era ter acesso às informações com rapidez, atualmente nos parece que é saber filtrá-las. Bombardeados por feeds que caducam a todo instante e opiniões supostamente relevantes sobre tudo, passamos o dia ocupando e desocupando nossas mentes. Um efeito colateral comum é a dificuldade de nos dedicarmos exclusivamente a uma ação, o que nos leva a não completar tarefas ou a fazê-las com uma certa superficialidade.

Como analistas de investimentos que somos, dedicamos a maior parte do nosso tempo a estudar e aprender mais sobre as empresas e indústrias que acompanhamos. Com raríssimas exceções, o qualitativo de uma tese de investimento não muda ao sabor do vento, de um tweet para o outro.

A velocidade do mundo real não acompanha a do virtual e, por mais difícil que seja internalizarmos isso no dia a dia, a vida real e dos negócios continuam acontecendo num ritmo mais “lento” – certamente muito mais rápido do que há algumas décadas, mas ainda sim “normal”. É difícil, senão impossível, produzir um trabalho intelectualmente original se não conseguirmos separar um espaço na agenda para a divagação, para o exercício do “ócio criativo”.

Ter a disciplina para essa atividade é um grande desafio, principalmente no momento atual de pandemia. O tempo todo estamos sendo empurrados para extremos, ora vestimos chapéu de epidemiologistas, ora de estatísticos, analistas de investimentos e assim por diante. Importante revisitarmos diariamente nossas raízes de investidores de ações (empresas) de longo prazo que, no final do dia, se dedicam principalmente a entender pessoas, negócios, dinâmicas competitivas e um pouco de economia.

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