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Primeiramente, gostaria de manifestar aqui minha solidariedade com o imenso sofrimento humano que será imposto pela pandemia do Covid-19. A coluna se propõe a discutir mercados, mas o impacto na vida das pessoas é agudo, intenso, e digno de nossa total atenção como sociedade. Espero que a nossa solidariedade não seja restrita a palavras, mas em cuidados para limitar o contágio e, acima de tudo, ação para proteger os mais vulneráveis de nossa sociedade.

A pandemia recente do novo coronavírus talvez possa ser caracterizada como uma das maiores falhas de precificação de risco da história dos mercados. Vai parecer óbvio em retrospecto, como todas as demais grandes crises. Mas é uma lição de humildade pensar que as bolsas globais tenham feito suas máximas históricas ainda em 2020, e que nós tardamos tanto a ajustar nossas expectativas.

Os efeitos de segunda ordem descritos no artigo anterior, que sugeriam a possibilidade de quebra de empresas devido à interrupção das atividades, parecem cada vez mais prováveis. Se de início nos preocupamos com um choque de oferta, vivendo em um mundo tão dependente dos fluxos de comércio envolvendo a China, agora vamos passar por um forte choque de demanda, de uma magnitude sem comparação nos tempos modernos.

As vantagens de vivermos no Brasil é que podemos olhar para o mundo, e saber que estamos algumas semanas atrás de cenários distintos. Se os controles aqui estabelecidos tiverem sido implantados a tempo, podemos ter um destino mais parecido com a Coreia do Sul ou o Japão – onde os casos continuaram crescendo, mas em ritmo muito menos acelerado. Se nós já falhamos nas medidas de contenção, nosso cenário poderá se assimilar ao que irá acontecer com a Itália.

Havendo uma crise aguda de liquidez nas empresas ou não, sobreviveremos. E então poderemos sonhar com uma retomada da atividade, como ocorre na China. Semana passada, tivemos o primeiro dia sem novos diagnósticos de coronavírus em Wuhan, o epicentro da epidemia, mais ou menos três meses depois de sua eclosão. Os indicadores chineses mais frequentes de atividade, como tamanho de congestionamentos em Beijing, ou consumo de carvão nas usinas, apontam para uma gradual normalização da economia. Alguns vem apontando que a China, após seu retorno à normalidade, será o motor da recuperação global.

Mas o retorno à normalidade deve ser mais lento do que sugerem alguns números. A administração alfandegária da China reportou que as exportações entre janeiro e fevereiro desse ano caíram -17,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar de ser um número muito significativo, foi estranho. Como nesse bimestre ocorre o Ano Novo Chinês, normalmente os trabalhadores estão operantes por cerca de seis semanas. Se as notícias indicavam que o país operou normalmente por entre três e quatro semanas, o impacto deveria ter sido muito maior. O tamanho relativamente modesto da queda até trouxe algum otimismo, afastando receios de um colapso ainda maior.

Mas existe a possibilidade desses dados sugerirem algo diferente. Os exportadores chineses provavelmente estavam operando em 2019 com um estoque relativamente maior, por conta do conflito comercial com os Estados Unidos. Talvez a máquina de exportação chinesa efetivamente tenha produzido muito menos, mas reduzido drasticamente seus estoques para compensar.

O corolário disso é que talvez as zonas industriais chinesas tenham partido de uma queda de produção maior do que os primeiros números podem sugerir.

Mas para além disso, existe uma questão ainda mais importante. Se a China é uma grande exportadora, capaz de provocar receios de um choque de oferta que impacte significativamente a economia global, agora são os seus clientes que estão entrando em um fechamento total de suas economias. Com o resto do mundo lentamente paralisando, de onde virá a demanda pelos produtos chineses que iriam permitir uma recuperação da economia asiática?

A natureza global da crise que se avizinha é diferente de todas as outras, ao atingir em cheio a economia real. Mas talvez seja prudente ser cauteloso quanto ao papel da China na recuperação global – os chineses ainda terão desafios grandes para se acomodar a um mundo que consome menos.


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