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“Quem determina a pauta e o tom de uma reunião é quem a convoca ou a preside. Vale para famílias, empresas e governos. Pelo menos, para os que funcionam.”

Não me surpreendeu, nem chocou, qualquer trecho do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril último. Ao processo legal, que motivou a divulgação, tampouco acrescentou novidades. Os trechos relacionados ao caso já eram, em sua maior parte, conhecidos por todos os interessados. A divulgação apenas solidifica em cada um sua própria opinião sobre a existência ou não da interferência presidencial, real ou pretendida, na Polícia Federal. Ainda que a transcrição desminta, faticamente, a afirmação anterior do Presidente da República de que não havia se referido à PF em qualquer momento da reunião, essa menção não é suficiente para provar, de forma cabal e definitiva, a interferência do Presidente. Talvez sejam mais probatórias as mudanças efetivamente ocorridas em postos da PF nos dias subsequentes àquela reunião, mudanças que não ocorreram no GSI, o órgão responsável pela segurança do presidente, do vice e dos familiares de ambos.

Dito isso, podemos sim fazer comentários sobre as falas da reunião, mais no sentido opinativo do que de formação de juízo sobre o objetivo do inquérito legal em curso, até porque nas duas horas e meia de duração da mesma, tratou-se de diversos outros assuntos, com a vergonhosa exceção de providências práticas para o enfrentamento da pandemia em sua linha de frente: os hospitais e os institutos de pesquisa. De novo, nenhuma manifestação de pesar, do Presidente e seus ministros, dirigida às quase vinte mil famílias que perderam entes queridos, muitos deles os provedores de seus sustentos.

Não me incluo entre os puristas da língua e da moralidade, chocados com o palavreado chulo e tosco da maioria dos participantes. Durante décadas participei de reuniões gerenciais, nas quais, sempre foi o chefe quem ditou a pauta e o tom. Tive chefes excelentes, de comportamento exemplar nesse tipo de situação: apresentava o tema, descrevia a situação, colocava sua opinião (ou não, naquele momento) e abria as discussões. Cuidava para que as intervenções individuais fossem objetivas, coibia os excessos e, se houvesse mulheres presentes, pedia desculpas a cada inevitável palavrão. A exemplo do chefe, a grande maioria comportava-se dentro do padrão estabelecido e, geralmente, chegava-se a um bom resultado, ainda que esse fosse o agendamento de uma nova reunião. Não há nada de errado em postergar uma decisão, caso não se consiga uma boa solução ou não haja convencimento de parte importante dos presentes.

Também bati ponto em reuniões desastrosas, por sinal, a maioria delas. Longas, enfadonhas, sem objetivos definidos, se não a apresentação de opiniões personalistas e exibicionistas, onde cada um quer impressionar e bajular o chefe, presente ou não. Se este estiver presente, então, a fogueira das vaidades arde do primeiro ao último minuto. Há todo tipo de gente nessas reuniões. Desde o bajulador explícito até aquele que percebe a ignorância e inépcia do chefe e opta pelo silêncio, preservando assim seu emprego e sua imagem. No meio, há, ainda, os exaltados, os realistas, os mentirosos, os carreiristas, os ignorantes, os ingênuos e, até mesmo, alguns competentes e bem intencionados. É impossível haver consenso e eficiência em uma equipe tão “multidisciplinar”, senão o acatamento à opinião do chefe, seja ela qual for.

Grosso modo, sem ter tido a paciência de ter assistido na integra e na seqüência original, foi o que percebi na bisonha reunião. Pareceu no primeiro momento que havia uma pauta principal: a apresentação aos ministros do Programa Pró Brasil e a solicitação de sugestões para definição da forma final do referido programa. Se a intenção era apresentá-lo ao país naquela mesma tarde, o que de fato ocorreu, fica claro que até ali não tinha acontecido nenhuma discussão ampla e que a tal reunião não poderia ter acontecido apenas três ou quatro horas antes de sua divulgação. De qualquer forma, se havia um objetivo perdeu-se logo no início, quando o Presidente saiu do script e passou a pedir mais empenho e comprometimento dos ministros às suas políticas nos mais diferentes e abrangentes aspectos, que não apenas os do programa em discussão.

Que o chefe tem o direito de exigir alinhamento e comprometimento, não se discute. Que tem o direito de tratar disso a qualquer momento em que esteja com seus subordinados, também está fora de questão. O problema é que havia um projeto importante em análise, para o qual se buscavam sugestões de melhoria e viabilidade. Houve, então, pouquíssimas intervenções propositivas e uma clara oposição, quanto à forma, do ministro Paulo Guedes. Nosso “Posto Ipiranga” chegou até a identificar as digitais de Rogério Marinho na formulação do programa. A captura de digitais serve, como sabemos, para identificação de culpados. O Ministro do Desenvolvimento, mesmo citado, sabiamente optou pelo apaziguamento. Salvou-se do desastre.

As falas de Weintraub, Salles e Araújo não significam nenhuma novidade. Sempre se expressaram dessa forma, já que nenhum deles tem o menor apreço pela educação, pela polidez e pela verdade. São os chamados “ideológicos”, cuja principal missão, definitivamente, não é estabelecer políticas e programas de ação para seus importantíssimos e fundamentais ministérios. Servem apenas como escudos e caixas de ressonância para as idéias, certas ou erradas ─ não é esse o foco deste artigo ─ , do Presidente da República. Tenho até dificuldade em encontrar algum crime em suas afirmações. São apenas demonstrações de estupidez, ignorância e subserviência. Lamentáveis, sim. Prescindíveis, certamente. Apropriadas, jamais. Criminosas, talvez.

Damaris mais uma vez foi Damaris. Uma mistura de fundamentalismo, ingenuidade e jequice. Bradou contra a liberação do jogo e o aborto e a favor dos seus valores; quis incluí-los no programa em discussão. Tornou-se a primeira ministra de Direitos Humanos no mundo a incentivar, e pedir, a prisão de prefeitos e governadores que teimam em cumprir suas obrigações constitucionais. Nenhuma novidade para quem encontrou Jesus numa goiabeira. A tímida exposição do recém chegado (e já saído) Ministro da Saúde ficou dentro do que dele se esperava: previsível e inócua. Escondeu-se muito bem.

Mas o que realmente chama a atenção no vídeo é que o presidente da reunião, supostamente o interessado em que ela atingisse algum objetivo, abdicou do seu papel de árbitro. Deixou o jogo correr. Não deu um pio na busca de consenso nos casos em que os subordinados divergiram e nenhuma ideia própria quanto à retomada do progresso e desenvolvimento econômico, em síntese, o objetivo do programa em discussão. Menos ainda sobre medidas para mitigar a crise sanitária. Preferiu atacar e defender sempre olhando sob seu interesse pessoal, familiar e ideológico. Ficou devendo explicar sua obsessão em armar a população para a defesa contra ditadores. Com um mínimo de má vontade e facciosismo, alguns “comunistas” da família Mesquita poderiam aventar que o Presidente está incentivando a formação de milícias ou grupos paramilitares, a exemplo de Chavez e Maduro.

Em resumo, uma reunião ordinária, de uma equipe ainda mais ordinária, cujo capitão dispõe de escassos predicados de inteligência e liderança. Os desdobramentos de tal desastre pouco têm a ver com o inquérito conduzido por Celso de Mello, mas sinaliza que ainda está longe a construção de um ambiente político e social que favoreça a discussão e implementação das necessárias medidas, que venham a conduzir o Brasil para longe do abismo que teima em rondar.


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