As mudanças climáticas e os impactos na economia

Setores possivelmente mais afetados serão o agrícola, segurador e de saúde

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As mudanças climáticas possuem como principais consequências a intensificação de eventos climáticos extremos, alteração dos padrões de chuvas, variação da temperatura, concentração de gases na atmosfera e alteração na produtividade agrícola. As alterações do clima podem ser causadas por processos internos naturais da terra, forças externas ou modificações causadas repetidamente pelo homem na composição da atmosfera ou uso do solo.

As atividades do ser humano passaram a influenciar o clima após a Revolução Industrial, por meio da emissão de grandes quantidades de gases de efeito estufa (GEE). Dentre esses gases de efeito estufa, o mais relevante é o dióxido de carbono (CO2), que se origina principalmente na queima de combustíveis fósseis. Por ser o principal gás de efeito estufa, passou a ser utilizado como medida padrão para os demais gases emitidos, o CO2 equivalente.

Um dos efeitos mais relevantes das mudanças climáticas é o aumento na incidência de eventos extremos, como secas, enchentes, furacões, entre outros, que podem causar danos às atividades econômicas, à infraestrutura e à saúde da população, como já começamos a notar em vários eventos climáticos ao redor do mundo. Estima-se que nos últimos 15 anos as perdas econômicas causadas por eventos climáticos extremos totalizam mais de US$ 3 trilhões, ou cerca de 0,3% do PIB mundial, levando a cerca de 500 mil mortes diretamente.

Países em desenvolvimento, como o Brasil, tendem a ser mais impactados por eventos climáticos extremos, em função da infraestrutura menos resiliente e da menor coordenação de políticas públicas de prevenção e evacuação. No Brasil, os eventos climáticos extremos representaram perdas nos últimos quinze anos de cerca de R$ 400 bilhões. Além das perdas econômicas, afetaram 15% da população e desalojaram 2,2 milhões de pessoas.

A seguir analisamos os principais impactos das mudanças climáticas nas atividades econômicas.

Uma das principais áreas afetadas são as áreas costeiras, onde vivem cerca de 60% da população mundial. No Brasil, cerca de 20% da população vive em zonas costeiras.

Essas áreas estão mais expostas às mudanças climáticas em função da tendência de elevação média do nível dos oceanos e da maior frequência de eventos climáticos extremos. Entre os impactos que podemos verificar sobre essas regiões estão danos estruturais em portos e terminais, obras de urbanização e infraestrutura de saneamento.

Um setor que deverá ser impactado por estes eventos é o setor de seguradoras. Principalmente pelo crescimento dos prêmios de seguros de propriedade, pessoais e de saúde, em função dos danos físicos causados por catástrofes naturais e disseminação de doenças.

Algumas seguradoras já registram aumento das sinistralidades em função desses eventos e estudos internacionais já registram um crescimento de cerca de 10% nas sinistralidades em relação à média dos últimos 10 anos. Como consequência vemos um aumento no valor dos prêmios de seguros em geral.

Outro setor impactado será o de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) produziu, em 2014, um relatório estimando que os efeitos das mudanças climáticas já são responsáveis por mais de 60 mil mortes por ano, por desastres naturais, além de outras 100 mil mortes por ano devido a doenças infecciosas. Nesse estudo, estima-se que em 2050 o número de mortes anuais pode atingir 250 mil pessoas.

Além disso, o clima mais quente é capaz de elevar a concentração de poluentes no ar, afetar a qualidade da água e aumentar a disseminação de causadores de doenças. Doenças transmissíveis por vetores, como dengue, zika e chicungunha tendem a crescer nesse cenário, como já vimos no Brasil nos últimos anos e, mais recentemente, o crescimento de infecção por doenças transmissíveis como o sarampo. Isso acarretará uma elevação dos gastos públicos com saúde e, como consequência, um aumento da demanda por serviços de saúde, favorecendo empresas desse setor.

Outro possível impacto das mudanças climáticas é o dos ciclos hidrológicos, que podem ser influenciados pela elevação da temperatura e falta ou aumento das precipitações. Por isso, as mudanças climáticas são capazes de determinar eventos hidrológicos críticos mais frequentes, como secas e enchentes, além de afetar diretamente a distribuição da vazão dos rios.

De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), estudos já desenvolvidos com modelos para a previsão de vazões das bacias hidrográficas brasileiras chegaram a resultados bastante divergentes entre si. Entretanto, todos eles apontam para a ocorrência de alterações no regime de escoamento, sendo difícil determinar a taxa e a magnitude dos efeitos.

Com o estado de criticidade de algumas bacias hidrográficas, é possível prever alterações no regime de outorgas de água para atividades produtivas: menor garantia do atendimento de usos, criação de critérios para redução de retirada e regras de cancelamento. Entre as bacias hidrográficas que já aplicam mecanismos de cobrança pelo uso da água, as principais, em termos de arrecadação.

Vemos no Chile atualmente a maior escassez hídrica das últimas décadas e, entre uma série de medidas a serem tomadas, está a limitação do uso da água para fins agrícolas, priorizando o uso humano. O setor agrícola respondeu em 2018 por cerca de 4% do PIB chileno.

A variação na ocorrência de eventos extremos deve gerar impactos significativos sobre a agricultura. Estudos sobre o tema calculam que as mudanças climáticas podem gerar perdas significativas sobre a produção de grãos brasileira a partir de 2020. A geografia da produção agrícola também será afetada, com migração de cultivos para outras regiões em busca de melhores condições climáticas. Entre os segmentos que podem ser favorecidos estão o de cana de açúcar e o de celulose, áreas em que o Brasil possui grande competitividade.

A produção de cana de açúcar pode dobrar nas próximas décadas, favorecida pelas mudanças climáticas e o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera pode favorecer a produtividade do setor florestal e, consequentemente, a produção de papel e celulose.

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